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Entre o luto e o amparo: como o seguro começa a transformar histórias nas favelas brasileiras

Notícias | 4 de maio de 2026 | Fonte: CQCS | Livia Alves

Entre o luto e o amparo: como o seguro começa a transformar histórias nas favelas brasileiras

Em muitas favelas brasileiras, despesas inesperadas ainda levam famílias a recorrer a empréstimos ou à ajuda de parentes para enfrentar momentos difíceis, como a perda de um familiar ou problemas que afetam a renda da casa. Aos poucos, esse cenário começa a mudar com a chegada de iniciativas do mercado segurador voltadas especificamente para esses territórios.

Em um país onde 16,4 milhões de pessoas vivem em favelas e comunidades urbanas, segundo o Censo 2022 do IBGE, projetos desenvolvidos por seguradoras como Favela Seguros do Grupo MAG e Mapfre buscam ampliar o acesso à proteção financeira por meio de produtos mais simples e adaptados à realidade econômica das periferias.

O Brasil possui 12.348 favelas e comunidades urbanas, distribuídas em 656 municípios, de acordo com o IBGE. Nessas áreas vivem 16.390.815 pessoas, o equivalente a 8,1% da população brasileira.

Complexo da Penha/RJ

A maior concentração está nas regiões Sudeste (43,4%) e Nordeste (28,3%), territórios marcados por forte presença de pequenos negócios, trabalho informal e renda muitas vezes instável.

Durante décadas, o acesso ao mercado de seguros foi limitado nesses locais. Produtos complexos, valores incompatíveis com a renda média e a ausência de distribuição dentro das favelas contribuíram para manter milhões de brasileiros fora da lógica da proteção financeira.

Nos últimos anos, porém, seguradoras passaram a enxergar nas periferias não apenas um desafio social, mas também um mercado com grande potencial de crescimento.

Aposta em proximidade e proteção familiar

Entre as iniciativas que surgiram com esse objetivo está a Favela Seguros, empresa que atua diretamente dentro das comunidades e aposta na proximidade com os moradores como forma de ampliar o acesso ao seguro.

Segundo Ronaldo Gama, head da Favela Seguros, os produtos oferecidos atualmente têm foco principalmente na proteção familiar.

“A Favela Seguros foca atualmente em assistência funeral, telemedicina e seguros de vida, oferecendo apólices com capitais de 10 mil, 20 mil e 50 mil reais, sendo esta última a faixa com maior adesão na carteira”, afirma.

Na prática, o segurado pode contar com suporte imediato em momentos delicados, como o falecimento de um familiar. “O cliente conta com um auxílio funeral, que pode ser individual ou familiar, além de um cartão alimentação de três mil reais. Esse suporte financeiro chega justamente em um momento em que muitas famílias não tinham acesso a qualquer tipo de proteção”, explica.

Segundo informações da Favela Seguros, a contratação de seguros nas comunidades está concentrada principalmente entre adultos em idade economicamente ativa. A faixa de 27 a 45 anos representa 58% dos clientes, seguida pelo público entre 46 e 70 anos, com 34%, enquanto jovens de 16 a 26 anos correspondem a 8% das contratações. Os dados indicam que a busca por proteção financeira ganha força à medida que aumentam as responsabilidades familiares e a geração de renda dentro da comunidade.

No comparativo com o mercado tradicional, a idade média de contratação do seguro de Vida Individual da MAG Seguros, criadora da Favela Seguros, é de 47 anos. Já na Favela Seguros, essa média é dois anos menor, o que reforça que a iniciativa atrai um público mais jovem.

Dados do Favela Seguros | Criado com auxílio de IA e editado por Livia Alves

A empresa já ultrapassou R$ 50 milhões em capital segurado, indicador que representa o volume de proteção oferecido aos clientes.

Hoje, a operação está presente em 10 comunidades entre Rio de Janeiro e São Paulo, com planos de expansão para todo o país.

Ronaldo Gama, head da Favela Seguros

“A meta principal é expandir a atuação das atuais 10 comunidades para todas as cinco regiões do Brasil”, afirma Gama.

Para o executivo, a presença física dentro das comunidades é um dos fatores que mais contribuem para a confiança dos moradores.

“A estratégia de estar presente dentro dos territórios valoriza o contato e a proximidade regional. O atendimento porta a porta cria uma rede de confiança entre os moradores e permite que o corretor conheça de perto as necessidades de cada família”, diz.

Esse modelo de proximidade também se reflete na forma de distribuição dos produtos. A Favela Seguros aposta na formação de corretores dentro das próprias comunidades, selecionando e capacitando moradores para atuar no território onde vivem. A estratégia busca fortalecer a confiança, facilitar o entendimento dos produtos e aproximar o seguro da realidade local.

Quando o seguro chega em um dos momentos mais difíceis

Mayelle Ribeiro Perrotta Neves, 37 anos, é promotora de vendas e moradora do bairro Penha, no Rio de Janeiro. Para ela, o seguro se tornou um apoio real em um dos momentos mais delicados da vida: a perda da mãe.

Foi nesse contexto que ela precisou acionar a assistência funeral contratada por meio da Favela Seguros.

Mayelle Ribeiro e sua mãe. Foto: Arquivo pessoal

“O falecimento da minha mãe foi a situação que me levou a acionar o seguro. Foi utilizado o serviço de assistência funeral e o suporte veio imediatamente. Recebi atendimento no momento em que entrei em contato, e tanto o vendedor quanto o time de assistência foram extremamente cuidadosos e atenciosos comigo”, conta.

Segundo Neves, o processo foi simples e rápido, algo que fez diferença em meio ao momento de dor. “Foi tudo muito simples, rápido e sem complicação. Sempre que surgia alguma dúvida sobre o serviço, ela era esclarecida prontamente pelo time da Favela Seguros”, relata.

Antes dessa experiência, Mayelle nunca havia utilizado um seguro, e após essa experiência, sua percepção sobre a importância da proteção financeira mudou.

“Me senti verdadeiramente protegida e amparada. Em um momento tão doloroso, o que eu menos precisava era lidar com preocupações financeiras ou burocráticas. Ter esse suporte trouxe segurança e alívio para mim e para minha família, foi algo que realmente superou minhas expectativas”, diz.

“A venda é totalmente baseada em confiança, porque falamos a mesma língua”, diz Raquel Miranda, Corretora de Seguros. 

Grande parte da estratégia da Favela Seguros está baseada na atuação de corretores que são moradores das próprias comunidades onde trabalham. Um exemplo é Raquel Miranda, 32, corretora da empresa e residente no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro.

Para Miranda, trabalhar com seguros dentro da própria comunidade tem um significado que vai além da atividade profissional. “Essa é a minha primeira experiência no setor e está sendo maravilhosa, porque é muito gratificante proteger famílias, principalmente no lugar onde eu moro e conheço muitas delas”, afirma.

Paraisópolis/Sao Paulo

Segundo Raquel, o fato de compartilhar a mesma realidade dos clientes ajuda a construir confiança. “Quando você mora na comunidade, conhece a realidade das famílias. A venda é totalmente baseada em confiança, porque falamos a mesma língua. Eu entendo o que eles passam, eles confiam em mim e isso facilita muito o diálogo”, explica.

A corretora também observa, no dia a dia, sinais claros de que o mercado tem potencial para crescer. “Vejo muitos salões, barbearias e mercadinhos dentro da comunidade. Ao mesmo tempo, ainda vejo muitas famílias precisando fazer vaquinha para enterrar um ente querido. Isso mostra que a proteção financeira ainda é uma necessidade muito real”, relata.

Apesar disso, ainda existe resistência cultural. “Muitas pessoas têm medo de contratar porque dizem que parece que estão ‘agorando’ alguma coisa. Mas é justamente o contrário: a ideia é garantir que, se algo acontecer, a família não fique desamparada”, diz.

Seguradoras ampliam iniciativas voltadas às comunidades urbanas

O interesse pelo público das favelas também começa a ganhar espaço entre seguradoras tradicionais. A Mapfre, por exemplo, criou o projeto Mapfre na Favela, voltado à ampliação do acesso ao seguro em territórios periféricos. O projeto teve início com um piloto em Paraisópolis, em São Paulo, em 2023, e foi consolidado com o lançamento oficial de produtos em 2024.

Segundo Fátima Lima, diretora de sustentabilidade da companhia, a iniciativa nasceu dentro do plano estratégico de sustentabilidade da empresa.

Fátima Lima, diretora de sustentabilidade da Mapfre

“O projeto foi estruturado em soluções de proteção acessíveis e com formatos de contratação simplificados, que respondem às demandas de moradores e empreendedores locais, como proteção de bens essenciais e apoio à estabilidade familiar”, afirma.

Atualmente, o projeto já está presente em Paraisópolis (SP), Casa Amarela (PE) e Sol Nascente (DF).

De acordo com a executiva, os potenciais segurados nestes territórios são, em sua maioria, adultos economicamente ativos, muitos deles microempreendedores ou responsáveis pela renda familiar.

Entre os produtos criados para esse público estão soluções voltadas à proteção pessoal, cobertura de equipamentos de trabalho e seguros para pequenos negócios que podem ser contratados apenas com CPF.

Segundo Lima, as mulheres têm presença relevante entre os segurados. “Observamos uma participação muito significativa de mulheres, especialmente entre empreendedoras de serviços como salões de beleza e alimentação”, explica.

Para o setor de seguros, iniciativas desse tipo apontam para uma mudança gradual: a inclusão de milhões de brasileiros que historicamente ficaram fora do acesso à proteção financeira.

Da ponte pra cá: o que o mercado ainda não enxerga nas favelas

Vila das Belezas – ZS/SP – Foto: Livia Alves/CQCS

Apesar do avanço de iniciativas que buscam ampliar o acesso ao seguro nas periferias, a oferta de produtos voltados para esse público ainda é limitada. Grande parte das soluções disponíveis ainda se concentra em coberturas mais simples, especialmente ligadas a seguro de vida ou assistência funeral, enquanto outras necessidades comuns nas favelas seguem fora do alcance do mercado.

Rubens Fernandes Gil Filho, diretor Comercial/Favela Holding

Para Rubens Fernandes Gil Filho, diretor Comercial e de Novos Negócios da Favela Holding, essa lacuna está diretamente ligada à forma como o setor historicamente se relacionou com esses territórios. A Favela Holding é o braço empresarial que atua em conjunto com a Central Única das Favelas, responsável por projetos sociais em milhares de comunidades no Brasil e no exterior.

Segundo ele, o problema nunca foi falta de interesse por parte da população, mas sim a ausência de diálogo real com esse público.

“O que faz uma solução de seguro ser aceita na favela não é só preço. É compreensão, confiança e aderência à realidade. Precisa ser simples de entender, rápido de acionar, transparente no retorno e, principalmente, distribuído por canais que já têm legitimidade no território. Quando a solução respeita a lógica local e resolve um problema concreto, ela deixa de ser percebida como produto e passa a ser vista como apoio real.”

Rubens destaca que, por muito tempo, o mercado desenvolveu produtos sem considerar as especificidades das periferias, o que contribuiu para afastar potenciais clientes. “Para a CUFA e a Favela Holding, comunicação não é embalagem, é estrutura de acesso. A forma como o seguro é apresentado define se ele vai ser compreendido ou rejeitado. Isso passa por linguagem direta, exemplos práticos, presença no território e escolha de interlocutores que já têm confiança da comunidade.”.

“Não é sobre traduzir o seguro técnico para o simples, é sobre reconstruir a narrativa a partir da realidade de quem vai usar. Quando a comunicação é bem feita, ela não só informa, ela viabiliza o uso.”, afirma o diretor. 

A própria criação da Favela Seguros nasce dessa tentativa de inverter a lógica tradicional. A iniciativa, uma parceria entre Favela Holding e MAG Seguros, aposta na formação de corretores dentro das próprias comunidades e no desenvolvimento de produtos pensados a partir das demandas locais.

Ainda assim, os desafios permanecem. A limitação do portfólio disponível nas periferias reflete, em parte, a dificuldade histórica do setor em enxergar esses territórios como economicamente viáveis e tecnicamente seguráveis.

Banco de Imagens, Capão Redondo/SP.
Banco de Imagens, Capão Redondo – ZS/SP.

Na avaliação de Igor Sabino Moreira Sousa, Diretor de Publicidade e Marketing Digital da Agência Seg News, membro do Presença Negra no seguro do CQCS e que acompanha o mercado há cerca de 15 anos e vive na periferia de São Paulo, essa visão ainda persiste. “Quando somamos essa origem com a lógica atual de mercado, fica mais fácil entender por que o público periférico sempre foi tratado como risco excluído”, afirma.

“Esses seguros ligados à vida ou assistência funeral são mais fáceis para o mercado regular. Você coloca um valor ali, a pessoa paga e pronto. Mas existem muitos outros riscos que simplesmente são tratados como risco excluído”, critica.

Para Sabino, o avanço do seguro nas favelas depende não apenas da criação de produtos acessíveis, mas também de uma mudança de mentalidade dentro do próprio setor. “Até hoje parece que muitas empresas simplesmente nunca se preocuparam em aprender a regular o risco desses territórios”, conclui.