Incêndio de grandes proporções em Itaquaquecetuba mobilizou equipes de emergência e atingiu indústria com produtos inflamáveis; para corretor, episódio levou empresas da região a revisar coberturas e valores
Fábrica de Itaquaquecetuba tinhha mais de 20 tanques de líquidos inflamáveis — Foto: Rede Globo
EXCLUSIVO – Na última semana, Itaquaquecetuba (SP) sofreu com um incêndio de grandes proporções após uma explosão na fábrica da Quema Química. O incêndio começou na tarde de terça-feira (4) e só foi controlado na noite de quarta-feira (5), mobilizando o trabalho de quase 30 horas por parte da equipe do Corpo de Bombeiros, segundo a empresa.
A companhia que atua no segmento de produtos químicos, incluindo resinas e solventes, mantinha no local dezenas de tanques destinados ao armazenamento de líquidos inflamáveis, com capacidade total superior a 2 milhões de litros. Imagens divulgadas nas redes sociais mostraram a dimensão e a intensidade do incêndio, que também provocou o rompimento de estruturas e atingiu bueiros nas proximidades da indústria. Não houve registro de mortes relacionadas ao incêndio.
Embora o fogo tenha ficado concentrado na área da indústria atingida, a dimensão do incidente chamou a atenção de empresas instaladas na região e levantou a discussão sobre prevenção, gerenciamento de riscos e proteção securitária. Procurada durante a ocorrência, a Quema Química foi questionada sobre a existência de seguro para a unidade, mas não informou se mantinha cobertura securitária.
O episódio ganhou repercussão entre empresários porque Itaquaquecetuba possui forte concentração de atividades industriais. Em entrevista, o advogado e corretor de seguros Sidinei Tiarga, da Tiarga & Cia Corretora de Seguros, afirma que o município reúne mais de 800 indústrias, principalmente de pequeno e médio porte. Para ele, a concentração faz com que determinadas companhias estejam instaladas próximas umas das outras e compartilhem exposições relacionadas ao ambiente industrial. “Por ser um polo industrial, as empresas acabam sendo sempre expostas ao maior risco. E não só de incêndio”, afirma.
Segundo o corretor, o incêndio provocou uma mudança na percepção de segurados da região sobre os próprios riscos. Clientes passaram a discutir a necessidade de revisar apólices e verificar se as coberturas existentes ainda correspondem ao patrimônio e à operação atual. “Isso leva todo mundo a analisar com outros olhos a sua apólice e se preocupar em estar com as coberturas adequadas, com os valores coerentes, com o valor em risco”, explica.
Para Sidinei, um dos principais pontos de atenção está na atualização dos valores segurados. Construção, equipamentos, matérias-primas e outros componentes necessários à atividade empresarial sofreram alterações nos últimos anos, o que pode fazer com que uma importância segurada definida anteriormente deixe de representar adequadamente a exposição da companhia.
“É interessante que o empresário reavalie as suas apólices, verifique se a importância segurada para incêndio está dentro do que ele realmente tem lá na situação de risco”, afirma.
A revisão, analisa o profissional, deve considerar o patrimônio efetivamente existente na empresa e os valores necessários para sua reposição em caso de um grande sinistro. Em operações industriais, a avaliação ganha relevância diante da dependência de máquinas, estruturas específicas e estoques que podem ter custos elevados de substituição.
Outro ponto destacado por Sidinei é o impacto financeiro provocado pela interrupção das atividades. Mesmo quando os bens destruídos podem ser posteriormente repostos, a empresa pode permanecer sem operar durante o período necessário para limpeza, reconstrução, substituição de equipamentos e retomada da produção.
Nesse cenário, a cobertura de lucros cessantes ganha importância, especialmente para empresas cuja operação depende de estruturas industriais, máquinas, estoques e instalações específicas. Na análise de Sidinei, essa proteção ainda pode ser deixada de lado durante a contratação do seguro, apesar de representar uma ferramenta para preservar a continuidade da empresa após um sinistro. “A cobertura de lucros cessantes, que muitas vezes é deixada para segundo plano, mas ela é tão importante num caso de sinistro porque ela vai permitir a continuidade da empresa após a indenização e reposição dos bens”, explica.
Na avaliação do corretor, a discussão sobre seguro precisa considerar não apenas quanto custaria reconstruir uma estrutura destruída, mas também quanto a empresa precisaria para atravessar o período em que ficará impossibilitada de operar normalmente.
A proximidade entre instalações industriais também levanta uma discussão sobre os impactos que um grande incêndio pode provocar em terceiros. Uma ocorrência envolvendo produtos químicos, por exemplo, pode potencialmente gerar danos a imóveis vizinhos, equipamentos, estoques, operações ou outros patrimônios localizados no entorno.
É nesse contexto que entram as discussões sobre responsabilidade civil e os próprios seguros patrimoniais contratados pelas empresas eventualmente afetadas.
Sidinei até citou como exemplo um cliente de sua carteira que mantém uma unidade industrial a cerca de 300 metros do local do incêndio. Embora a empresa não tenha sofrido danos, a proximidade e a área geográfica apontam como uma ocorrência de grandes proporções pode ser acompanhada de perto por outros estabelecimentos e levar empresários a reavaliar suas próprias exposições.
O episódio também reforça, segundo o corretor, que o gerenciamento de riscos precisa considerar o ambiente em que a empresa está inserida. “Você vê o que está acontecendo recentemente aí. Vem vendaval por todo o Brasil, coisa que a gente não tinha nessa intensidade no passado. Então, isso traz o empresário, o industrial, a refletir que são riscos próximos. Pode acontecer com seu vizinho, pode acontecer com ele também”, avalia.
“O único tipo de proteção que ele pode ter, em relação a esse tipo de sinistro, é a prevenção, um gerenciamento de riscos correto, seguir bem o que é determinado pelos bombeiros, pelos projetos de aprovação e também, como amparo, um seguro de incêndio bem feito”, pontua.
A mobilização provocada pelo incêndio também evidenciou o impacto de ocorrências industriais sobre o entorno. Segundo Sidinei, empresas associadas à Frente Empresarial de Itaquaquecetuba (Fempi) acompanharam o combate às chamas e chegaram a se mobilizar para fornecer materiais adequados ao enfrentamento de incêndios envolvendo produtos químicos.
“Foi o tipo de situação que todos temem quando acontece. A proporção, o desgaste e o prejuízo são enormes. Não só para a empresa, mas para a sociedade, para o município, para todo mundo”, comenta.
Outros incêndios
O ocorrido na Quema Química foi, segundo Tiarga, o único incêndio de grandes proporções registrado na região neste ano. O corretor citou outros dois casos envolvendo companhias que também chamaram a atenção no município, incluindo um incidente envolvendo uma indústria de sucata e reciclagem.
A sucessão de ocorrências, entretanto, não significa necessariamente que a região tenha se transformado em uma área de risco excepcional. A avaliação do corretor é que a própria concentração de atividades industriais aumenta a exposição a determinados tipos de eventos e torna ainda mais importante a adoção de mecanismos adequados de prevenção e proteção.
Para o mercado de seguros, episódios dessa magnitude também podem servir como alerta para a necessidade de reavaliar riscos, limites de cobertura e condições de contratação em indústrias instaladas em áreas industriais. Na visão do profissional, o principal efeito imediato do incêndio foi justamente colocar o seguro novamente no centro da conversa entre empresários. “Eu tive cliente que já ligou. Ela estava pensando em renovar ou não, e todos comentam. Foi comentário geral na cidade”, conta.
A percepção é de que grandes sinistros podem funcionar como gatilho para uma revisão que, em situações normais, acaba sendo postergada: verificar se a apólice contratada há alguns anos ainda acompanha o patrimônio, os custos de reposição e as características atuais da operação.
“É o tipo de situação que todos temem quando acontece. A proporção, o desgaste e o prejuízo são enormes. Não só para a empresa, mas para a sociedade, para o município, para todos”, conclui.
Nicholas Godoy

