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Polícia de SP investiga morte cercada de mistério de empresário com seguro de vida de R$ 85 milhões

CQCS – Notícias | 2 de junho de 2026 | Fonte: Folha de S.P

Polícia tenta descobrir se houve homicídio ou suicídio e se corpo enterrado é mesmo do homem que tinha seguro

Uma investigação iniciada há quase cinco anos pela polícia de São Paulo ainda não conseguiu esclarecer se a morte de um empresário de 31 anos foi um caso de suicídio ou homicídio e, o mais intrigante, se o corpo enterrado é, de fato, da pessoa cujo nome consta na certidão de óbito. O caso envolve ainda apólices de seguro que somam cerca de R$ 85 milhões.

José Matheus Silva Gomes foi encontrado ferido por policiais militares no início da tarde de 2 de julho de 2021, em Jandira (SP), no banco traseiro de um Volkswagen Jetta blindado. Para a perícia, a cena indicava um atentado contra a própria vida: havia uma pistola próxima ao corpo, um único disparo na têmpora e nenhum sinal de luta ou resistência.

O empresário foi levado a um hospital de Osasco, onde morreu. Exames feitos pelo IML (Instituto Médico Legal) reforçaram a hipótese de suicídio. A possibilidade de homicídio não foi, porém, descartada completamente pelos peritos porque não havia testemunha ou imagens de câmeras de segurança para saber o que exatamente ocorreu. Por isso, a polícia instaurou um inquérito.

A investigação seguia seu curso normal até dezembro de 2021, quando a polícia decidiu reclassificar o caso de suicídio para homicídio doloso, mesmo sem ter suspeitos em mira. A mudança, comum na rotina policial, abriu caminho para a inclusão de novas informações, ampliando as dúvidas sobre o episódio. A maior interessada na reviravolta é a Prudential, principal seguradora do empresário.

Pela legislação brasileira, quando um suicídio ocorre nos primeiros dois anos de vigência do seguro de vida, o beneficiário não tem direito ao capital segurado, isto é, à indenização principal. Após dois anos de contrato, as empresas não podem negar o pagamento apenas por se tratar de suicídio. O prazo de dois anos funciona, assim, como uma espécie de carência legal para esse risco.

Ou, seja, sem a mudança do inquérito para homicídio, Nayá de Arruda Singarini, ex-mulher de José Matheus, a única beneficiária dos contratos, não teria muita chance de receber as indenizações. Até agora, nada foi pago à família porque o assunto também é discutido judicialmente.

Documentos apresentados pela seguradora, além de outros obtidos pela polícia a pedido dessa empresa, indicaram comportamento atípico da vítima. Desde setembro de 2019, José Matheus havia contratado 14 apólices de seguro, em quatro companhias, totalizando cerca de R$ 85 milhões. O último contrato foi assinado 11 dias antes de ele ser encontrado baleado.

Somente as apólices contratadas com a Prudential somavam R$ 66,5 milhões. Um único contrato previa R$ 44 milhões de indenização. O valor não foi maior porque a empresa recusou, segundo disse à polícia, pedido para ampliar a cobertura para R$ 100 milhões.

Documentos levados ao autor também indicam que José Matheus teria sido investigado por tentativa de fraude em seguro, em 1994. Na ocasião, teria simulado o furto de um veículo próprio para receber a indenização, mas não teria conseguido concluir o plano. A Promotoria pediu o arquivamento por ausência de prejuízo, e ele não foi condenado.

A seguradora afirma que essas apólices de seguro de vida milionárias podem ter sido bancadas com dinheiro sujo. A empresa apresentou à polícia informações sobre o espólio de José Matheus e de seus dois sócios passou como alvo de ações judiciais sob acusação de terem montado um suposto esquema de pirâmide financeira.

Veículo usado pelo empresário José Matheus Silva Gomes, em 2021, quando foi encontrado ferido na cabeça – Reprodução/Inquérito Policial

Segundo as investigações, o grupo atraiu clientes com promessa de rendimentos acima do mercado, cerca de 4% ao mês. Depois, desapareceu com os valores investidos. Clientes afirmam que só descobriram as perdas após a morte de José Matheus. De acordo com depoimentos, a empresa Brunswick Capital Group Investimentos teria captado ao menos R$ 18 milhões.

Investidores suspeitam que esse dinheiro tenha sido usado por José Matheus para manter uma vida de luxo, com carros importados e aluguel de mansões, e também para conseguir realizar o pagamento dos próprios seguros, estimados em R$ 77 mil mensais.

A suspeita de fraude levou a Polícia Civil a instaurar um segundo inquérito, ainda em andamento, para apurar possíveis crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa envolvendo os sócios de José Matheus, entre eles Victor Hugo Conservani Coutinho e Gabriel Pimentel e Silva.

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirmou que o inquérito sobre a morte do empresário tramita sob sigilo e aguarda o resultado de exame de DNA para confirmar a identidade do corpo. “As investigações seguem em andamento, e a autoridade policial aguarda a conclusão do exame requisitado pelo Ministério Público, cujo resultado poderá contribuir para o esclarecimento dos fatos e para a confirmação da identidade da pessoa encontrada no veículo”, disse, em nota.

Empresa questiona em inquérito se documentos de José Matheus Silva Gomes trazem pessoas diferentes – Reprodução/Inquérito Policial

Segundo a pasta, todas as hipóteses foram consideradas ao longo da apuração, com adoção das medidas técnicas e legais cabíveis. A secretaria acrescentou que a natureza da ocorrência pode ser alterada durante o inquérito, sem prejuízo para a investigação.

A Prudential do Brasil afirmou que acompanha o caso para assegurar a correta regulação do sinistro e que seus procedimentos seguem a legislação e as normas da Susep (Superintendência de Seguros Privados).

“A empresa reitera que o caso corre em segredo de Justiça. Mantemos compromisso com a proteção dos segurados, adotamos práticas rigorosas de subscrição e prezamos pela ética e pela celeridade no pagamento de sinistros devidos, após a devida apuração”, disse.

O advogado da família de José Matheus, Ricardo Sayeg, afirma não haver dúvidas sobre a identidade do corpo. Segundo ele, um exame realizado na arcada dentária confirmou tratar-se de José Matheus.

Para Sayeg, a seguradora tenta retardar o pagamento da indenização. “É uma decepção ver empresas que, após aceitarem o contrato e receberem os valores, criam obstáculos para indenizar a família, especialmente uma criança que, na época, tinha menos de dois anos”, disse.

“Se a indenização é alta, é porque o pai quis garantir proteção ao filho. As seguradoras aceitaram o contrato e receberam por isso. Não cabe, após a morte, quando o segurado não pode se defender, alegar que o contrato não tem validade. Esse tipo de argumento é inaceitável”, completou.

Por meio de seu advogado, Gabriel Pimentel e Silva disse que não cometeu irregularidades e se colocou à disposição das autoridades.

“Desconheço qualquer apuração em curso, mas estou à disposição para prestar esclarecimentos, com a tranquilidade de quem não praticou ilícito”, declarou.

Victor Hugo Conservani Coutinho não respondeu às mensagens enviadas por celular, e-mail ou por intermédio do sócio.