A perspectiva de intensificação do El Niño e seus possíveis reflexos no Paraná e em Mato Grosso do Sul estiveram entre os principais temas da reunião da Comissão de Seguros Gerais do Sindseg PR/MS. O encontro também tratou de mudanças regulatórias nos seguros de transporte, rural e de danos.
Clima extremo e os reflexos na precificação
Na reunião da Comissão de Seguros Gerais do Sindseg PR/MS, que aconteceu na última terça-feira (15/09), na sede do sindicato em Curitiba, os participantes discutiram os efeitos dos temporais registrados na região e a possibilidade de ocorrência de outros eventos severos nos próximos meses. A preocupação encontra respaldo nas projeções meteorológicas: o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) aponta probabilidade superior a 90% de o El Niño atingir intensidade muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro de 2026.
Diante desse cenário, o Sindseg PR/MS informou que pretende promover inicialmente encontros em Curitiba e Campo Grande com especialista em fenômenos meteorológicos e ferramentas de monitoramento, para apresentar projeções e informações sobre eventos extremos no Paraná e em Mato Grosso do Sul. Dependendo dos resultados, a iniciativa poderá posteriormente chegar a outras regiões.
A recorrência de eventos severos também levou a Comissão a discutir os limites atuais das coberturas e os critérios de precificação. No caso dos alagamentos, foi apontado que a proteção precisa ser contratada especificamente, não é oferecida por todas as seguradoras e pode encontrar restrições conforme a localização do imóvel e sua exposição ao risco. Já no vendaval, algumas apólices trabalham com sublimites que podem chegar a 30% da cobertura básica. A preocupação é que esse valor nem sempre acompanhe a dimensão atual dos prejuízos, especialmente diante de sistemas construtivos mais caros e da presença de estruturas como painéis solares.
Entre os caminhos discutidos estão uma precificação mais adequada à nova realidade dos eventos climáticos e a ampliação das coberturas oferecidas. A Comissão também destacou a possibilidade de aproveitar a experiência de resseguradoras com atuação internacional, que já acumulam conhecimento sobre a modelagem e a precificação de riscos catastróficos em outros mercados.
A repercussão dos temporais também produz efeitos imediatos na percepção do consumidor. Josemar Brum Ballejo, membro da Comissão e representante do Sindseg PR/MS em Cascavel, relatou que, após um temporal com granizo amplamente divulgado pela imprensa local, “o volume de seguros efetivamente emitidos pela sucursal em que atua chegou ao dobro da média normal durante quatro dias. Passado o período de maior repercussão, as emissões retornaram aos níveis habituais”.
Para o diretor executivo do Sindseg PR/MS, Ramiro Dias, o setor também precisa tornar mais visível o papel desempenhado pelo seguro depois da ocorrência dos sinistros. “A sociedade não tem acesso amplamente aos números, à evidência e à visualização de como o seguro trouxe a reconstrução, mitigou um prejuízo muito maior”, destacou.
Agronegócio: previsibilidade para a subvenção ao seguro rural
No segmento rural, a Comissão analisou a aprovação pelo Senado do Projeto de Lei 2.951/2024, que estabelece um novo marco para o seguro rural e seguiu para sanção presidencial. Entre as medidas previstas está a proteção dos recursos destinados à subvenção ao prêmio do seguro rural contra contingenciamentos, buscando dar maior previsibilidade ao programa.
De acordo com os participantes essas alterações são muito oportunas na medida em que o produto seguro rural vinha se inviabilizando, principalmente em função da demora no repasse desses recursos às seguradoras. A avaliação é que a morosidade interfere nas provisões e no planejamento das companhias minando o interesse do mercado em assumir riscos nas safras seguintes.
O cenário ajuda a explicar a retração da proteção no campo: segundo a CNseg, a área agrícola segurada, que chegou a 16,3% em 2021, tinha projeção de apenas 2,3% em 2025, em meio ao bloqueio de recursos da subvenção e à volatilidade dos preços das coberturas.
O tema ganha relevância principalmente para pequenos e médios produtores, mais dependentes da subvenção para viabilizar a contratação da proteção. Caso as novas regras sejam sancionadas, a expectativa manifestada durante a reunião é de maior previsibilidade para produtores e seguradoras e de melhores condições para a manutenção da oferta do seguro rural.
O presidente do Sindseg PR/MS Guilherme Bini esteve recentemente no escritório regional do líder da bancada ruralista na Câmara dos Deputados, Pedro Lupion (Republicanos-PR), manifestando o apoio do mercado regional de seguros às mudanças na operacionalização do seguro rural.
Setor de transportes: frota envelhecida e novas exigências
O transporte de cargas também ocupou parte importante da reunião. Um dos pontos debatidos foi o envelhecimento da frota brasileira e seus reflexos sobre o gerenciamento de riscos. A discussão considerou que veículos mais antigos tendem a dispor de menos tecnologias embarcadas de segurança e podem exigir maior atenção à manutenção preventiva.
Durante o encontro, foram citados dados indicando a circulação de cerca de meio milhão de caminhões com mais de 25 anos no país e queda de 6,7% no emplacamento de caminhões novos nos primeiros meses de 2026. A Comissão ponderou, entretanto, que a idade do veículo, isoladamente, não determina sua segurança: as condições de manutenção e de operação também são decisivas.
Os participantes fizeram ainda uma distinção entre o transporte de cargas e os automóveis de passeio. Neste último segmento, foi relatada a percepção de que a dificuldade de acesso ao crédito e de aquisição de veículos novos tem levado consumidores a permanecer mais tempo com seus automóveis, abrindo espaço também para produtos destinados a veículos usados.
Seguros obrigatórios e dúvidas operacionais
Outro ponto foi a aplicação das regras dos seguros obrigatórios para o transporte rodoviário de cargas. A discussão envolveu especialmente o RCTR-C, destinado à responsabilidade civil por danos à carga decorrentes de acidentes; o RC-DC, relacionado ao desaparecimento da carga; e o RC-V, voltado à responsabilidade civil por danos corporais e materiais causados a terceiros pelo veículo utilizado no transporte.
A ANTT vem intensificando a verificação do cumprimento dessas obrigações por meio do cruzamento eletrônico das informações do RNTRC com os dados das apólices, o que amplia a importância de transportadores manterem seus seguros e informações operacionais regulares.
Na reunião, representantes das seguradoras relataram que ainda existem dúvidas práticas relacionadas à operacionalização das novas regras, como procedimentos de averbação, interação entre diferentes coberturas, regulação de sinistros e tratamento dos salvados quando mais de uma apólice participa da indenização.
Diante desse cenário, o Sindseg PR/MS pretende elaborar material explicativo sobre as diferentes modalidades de seguro, detalhando o que cada uma cobre e as obrigações dos transportadores. A intenção é levar o conteúdo também às entidades representativas do transporte, ampliando a orientação sobre as exigências em vigor.
Resolução CNSP 496: novas regras para os seguros de danos
Outro ponto técnico de destaque foi a Resolução CNSP nº 496/2026, que revogou a Resolução CNSP nº 407/2021 e atualizou as regras aplicáveis aos contratos de seguros de danos. A norma alcança, entre outras modalidades, riscos nomeados e operacionais, petróleo, aeronáuticos, marítimos e nucleares.
Durante a reunião, os participantes discutiram especialmente os reflexos das novas regras sobre produtos anteriormente enquadrados no regime de grandes riscos, que contavam com maior liberdade contratual. A Resolução 496 estabelece novas exigências de estruturação e registro eletrônico das condições contratuais, demandando adaptações nos processos e produtos das seguradoras.
Os planos já registrados deverão ser adaptados até 4 de janeiro de 2027, enquanto as novas regras serão obrigatórias para contratos de seguros de danos formados ou renovados a partir de 5 de janeiro de 2027.
Educação: cultura do seguro nas escolas de Cascavel
A reunião também abriu espaço para o balanço de uma iniciativa de educação securitária realizada em Cascavel durante a Semana do Seguro. A ação, desenvolvida pelo núcleo local de corretores, levou a estudantes da rede municipal uma proposta de redação sobre a importância do seguro para a sociedade.
O projeto envolveu alunos e professores e previu o reconhecimento das melhores redações, além de premiação aos educadores envolvidos. Durante a Comissão, a experiência foi destacada como uma forma de levar o conceito de prevenção e proteção para além do público que já mantém contato com o mercado segurador, aproximando o tema de estudantes e de suas famílias.


