Referência nacional em seguro garantia — tendo sido pioneira na primeira apólice do país e protagonista na evolução desse produto ao longo de três décadas — a Junto Seguros vive um momento de fortalecimento técnico e expansão em um ambiente regulatório em transformação. À frente de duas áreas-chave para a tomada de risco, Eduardo Cruci lidera Risco de Crédito e Underwriting em uma fase de investimentos estruturais para acompanhar o avanço das concessões, PPPs e grandes contratos públicos e privados, ao mesmo tempo em que se adapta às exigências do novo Marco Legal dos Seguros (Lei 15.040/2024), que entra em vigor em 11 de dezembro de 2025.
Com quase 30 anos de experiência em crédito, subscrição e finanças corporativas, Cruci comanda iniciativas que vão da avaliação de limites de crédito à aprovação de riscos complexos, integra os comitês estratégicos da companhia e vem consolidando uma operação unificada, mais robusta e ágil — movimento que estreita a parceria com resseguradores e reforça a capacidade de resposta em negócios de maior valor agregado.
A CNseg, confederação das seguradoras, projeta um crescimento robusto para o mercado de seguro garantia, com estimativas de 17,9% para 2025 e 13,6% para 2026. Em 2024, as vendas superaram R$ 5 bilhões. Segundo dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep), a Junto Seguros lidera o ranking deste segmento. Segundo Cruci, o ciclo virtuoso de investimentos em infraestrutura no país, com mais de 560 projetos em desenvolvimento, demanda investimentos privados superiores a R$ 750 bilhões em infraestrutura urbana, logística e social. “Projetos de longo prazo exigem estruturas financeiras robustas, apoiadas por programas de seguros e garantias bem estruturados desenhado juntamente com a concessão de crédito”, diz.
Nesta entrevista ao Sonho Seguro, ele avalia os desafios do novo marco legal, analisa a conjuntura de investimentos em infraestrutura e explica como a companhia está se preparando para sustentar sua relevância no mercado. O executivo destaca como os principais desafios as elevadas taxas de juros, o aumento da inflação e seus impactos nos custos dos projetos, as mudanças climáticas severas e a necessidade de novas estratégias de resiliência, bem como as dificuldades na cadeia de fornecedores, afetando cronogramas e orçamentos.
Qual é o impacto do novo Marco Legal dos Seguros no segmento de Garantia?
Ele traz uma série de mudanças com novas perspectivas — algumas positivas, outras que exigem atenção redobrada. Em sinistros, por exemplo, o prazo prescricional passa a contar apenas após o aviso, o que gera perenidade no risco e impacto relevante em provisões. Vamos ter que carregar o passivo por mais tempo, e isso mexe diretamente na contabilidade. Além disso, há a exigência de liquidação em até 120 dias, o que comprime a janela de atuação da seguradora, ao mesmo tempo em que o segurado ganha amplitude para formalizar o aviso quando entender adequado. Nosso objetivo é resolver o problema quando ele acontece — e não criar passivos indefinidamente — por isso o tema ainda merece amadurecimento. Outro ponto sensível é a aceitação tácita. O prazo regulatório exige muita agilidade, mas existem riscos bilionários cuja avaliação é naturalmente longa e complexa. Estamos reforçando processos internos para acelerar respostas, porém haverá situações em que a complexidade ultrapassa o prazo. Aí surge o risco de negativas indesejadas. Preferimos evitar decisões precipitadas. Há ainda a obrigação de protocolar condições especiais na Susep. Consideramos um processo oneroso, porque o setor sempre trabalhou com cláusulas particulares devidamente formalizadas entre as partes.
Como as mudanças na alocação de responsabilidades, transparência contratual e segurança jurídica afetam o desenvolvimento de produtos e a relação com tomadores e segurados?
A lei nasce com foco claro na proteção do segurado, o que tende a tornar a relação mais objetiva e diligente. Isso é bom — dá dinamismo ao mercado. Mas não cria necessariamente produtos novos: ela aperta prazos e aumenta o grau de cuidado do segurador no processo de aceitação e de regulação. Por isso estamos refinando critérios de aceitação. Os prazos agora correm menos favoráveis às seguradoras, e isso exige rigor técnico ainda maior.
Como a Junto Seguros vem se preparando internamente para esse novo ambiente regulatório?
Fizemos dois movimentos estruturais. Reforçamos e qualificamos a área de sinistros: hoje temos um time mais sênior, preparado para lidar com maior complexidade e exigência regulatória. E ampliamos a área de controle de riscos, que passa a atuar de forma protagonista no pré e no pós-sinistro. Essas duas áreas tornam-se ainda mais estratégicas dentro da seguradora, garantindo perenidade e sustentabilidade na exposição ao risco.
Há mudanças nos processos de subscrição, controles de risco e na interlocução com corretores e resseguradores?
Sem dúvida. O corretor também passa a ter novas responsabilidades e precisa se preparar. Muitos têm nos procurado para orientação sobre prazos e requisitos. Estamos trabalhando em rotinas e fluxos que assegurem respostas dentro do prazo regulamentar, sem pedir documentação além do necessário. Queremos uma operação mais limpa: avaliação de risco simples, clara e transparente. Cláusula dúbia vira problema gigante lá na frente. Nosso objetivo é eliminar isso na origem, alinhados com o apetite da companhia.
O mercado de Garantia vive forte demanda em infraestrutura, concessões e PPPs. Onde estão as principais oportunidades e os maiores desafios no crédito?
Existem grandes oportunidades. A agenda de investimentos em rodovias e ferrovias supera R$ 500 bilhões. 2025 foi muito positivo: várias concessões caminharam, apólices com cláusulas de retomada foram acionadas e funcionaram. Para 2026, seguimos com portos, aeroportos e projetos relevantes. Mas temos desafios. Com juros elevados, a taxa de retorno dos projetos é menor — e isso afasta investidores. O mercado está mais seletivo. No caso das PPPs, há o desafio adicional da capacidade fiscal do governo, que terá de assumir compromissos por mais de 20 anos. O investidor olha para isso com muita atenção ao plano do governo para o orçamento da União. Então, o cenário é de otimismo moderado: oportunidades existem, mas exige seleção criteriosa e disciplina técnica na análise.
Você tem uma formação robusta em capital markets, liderança e certificações internacionais. Como isso influencia a estratégia de subscrição da companhia?
Aprendizado contínuo é parte da minha rotina: quanto mais você aprende, mais percebe o quanto ainda falta. E no seguro garantia, risco de crédito e risco de subscrição são indissociáveis. A decisão nunca é sequencial — é integrada, olhando o negócio como um todo. Tenho 28 anos de mercado financeiro, 12 em bancos e 16 em seguros. Essa experiência permite avaliar concessões e projetos com uma visão completa: receita, custos operacionais, risco de execução, viabilidade. Na Junto, construímos uma área coesa, capaz de tomar decisões de negócio com esse olhar único. E sigo buscando certificações internacionais para elevar o padrão técnico.
Há novos produtos ou práticas internacionais que você deseja trazer para o Brasil no curto prazo?
Estamos sempre atentos a produtos que tenham aderência ao seguro garantia. Já trouxemos alguns para o portfólio. O mercado americano tem um nível de gestão de sinistros extraordinário — lá, o seguro pode chegar a 100% do projeto. A gestão contratual e de mediação é muito mais avançada. Temos um acionista com forte atuação internacional nesse segmento, e isso acelera nosso desenvolvimento. O foco está em gestão de risco ao longo do tempo, especialmente quando há cláusula de retomada. A área técnica trabalha totalmente integrada ao controle de risco para suportar esse modelo.

