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Seguros e mecanismos de risco ganham espaço no financiamento da transição climática

Notícias | 8 de outubro de 2026 | Fonte: CQCS | Karem Soares

Seguros, garantias e mecanismos de transferência de riscos podem ter papel relevante na ampliação do financiamento de projetos ligados à transição climática. O tema foi debatido no webinar “De-risking Brasil: instrumentos para financiamento da transição”, realizado em 30 de setembro, durante a Jornada Blended Finance 2026. O encontro reuniu representantes da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), da Iniciativa Financeira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-FI), da McKinsey, da Marsh e da International Finance Corporation (IFC).

Durante o debate, a diretora de Sustentabilidade da CNseg, Claudia Prates, defendeu que o seguro seja incorporado já nas etapas iniciais de estruturação dos projetos climáticos. “Queremos que o seguro seja considerado uma solução desde o início dos projetos para a transição climática, demonstrando os riscos e como eles podem ser mitigados.”

Identificar antecipadamente os riscos e apresentar mecanismos capazes de mitigá-los pode aumentar a confiança dos financiadores e contribuir para a atração de recursos privados. A executiva ressaltou ainda que a disponibilidade de capital precisa ser acompanhada por projetos tecnicamente estruturados e com riscos adequadamente tratados.

O webinar foi promovido pela CNseg em parceria com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a Federação Brasileira de Bancos (Febraban),  a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE) e a UNEP-FI.

Responsável pela condução do debate, o líder regional de Finanças Climáticas para América Latina e Caribe da UNEP-FI, Fernando Salazar, explicou que estratégias de de-risking procuram reduzir a exposição dos investidores por meio de mecanismos de transferência, mitigação e compartilhamento de riscos. Na prática, essas estruturas podem tornar projetos considerados mais arriscados em operações com maior capacidade de atrair capital e ganhar escala.

Thomas Descamps, gerente de Engajamento da McKinsey, destacou mecanismos de transferência significativa de riscos, conhecidos pela sigla SRT. Nessas operações, instituições financeiras podem transferir a investidores parte da exposição associada a determinadas carteiras de crédito. Quando as exigências regulatórias são atendidas, a estratégia pode reduzir a quantidade de capital que o banco precisa manter para suportar essas exposições, aumentando sua capacidade de realizar novas operações. Descamps observou, porém, que a expansão desse mercado ainda depende de maior conhecimento técnico e capacidade operacional, especialmente entre instituições financeiras de menor porte.

O mercado de seguros também foi apresentado como instrumento importante para ampliar a previsibilidade de projetos de infraestrutura e de transição climática. De acordo com o diretor-executivo de Specialty da Marsh, Thiago Lang, os seguros podem atuar em diferentes fases de um empreendimento, transferindo ou compartilhando riscos e facilitando a entrada de capital. A aplicação é especialmente relevante em estruturas de Project Finance, nas quais a avaliação dos riscos do próprio projeto influencia diretamente a obtenção de financiamento.

O diretor de Infraestrutura e Construção da Marsh, André Dabus, afirmou que a redução das incertezas é essencial para aumentar a atratividade dos projetos para investidores e financiadores. Segundo o executivo, aproximadamente 80% dos investimentos realizados em infraestrutura no Brasil nos últimos dez anos vieram do setor privado. Dabus também destacou a necessidade de incorporar novas condições climáticas ao planejamento das obras. Uma das abordagens mencionadas foi o conceito de Build Back Better, que prevê reconstruções mais resilientes após eventos extremos, de forma a reduzir futuras perdas.

Modelos paramétricos e ferramentas de inteligência artificial também foram apontados como recursos que podem apoiar a avaliação e a gestão desses riscos.

Entre os exemplos apresentados no encontro está o seguro voltado a operações envolvendo créditos de carbono. A gerente e Business Developer de Seguros de Linhas Financeiras da Marsh, Letícia Del Grandi, apresentou uma operação realizada nos Estados Unidos envolvendo a empresa de reflorestamento Chestnut. A companhia possuía um contrato de venda de créditos de carbono para a Microsoft e buscava financiamento de US$ 210 milhões junto ao JPMorgan.

A operação contou com uma apólice de sete anos que cobria parte dos riscos associados à não entrega dos créditos, à invalidação dos ativos e à reversão do carbono para a atmosfera em consequência de desastres naturais.

Segundo a Marsh, uma estrutura semelhante está sendo preparada para o mercado brasileiro em parceria com a Akad Seguradora e a consultoria Polido e Carvalho. O modelo foi adaptado à legislação nacional para permitir a regulação e o pagamento de eventuais sinistros no país.

A cobertura não precisa, necessariamente, corresponder ao valor total financiado. O limite pode ser definido de acordo com a estrutura da operação e com o nível de risco que se pretende transferir. Além de iniciativas de reflorestamento, o seguro pode ser aplicado a projetos de redução de emissões decorrentes de desmatamento e degradação florestal, conhecidos como REDD, e de captura e armazenamento de carbono (CCS).

Outra alternativa apresentada durante o webinar envolve estruturas que permitem o compartilhamento do risco entre bancos e investidores. Tomás Lo Prete, oficial de investimentos do IFC, apresentou instrumentos como o Risk Sharing Facility (RSF) e o Significant Risk Transfer (SRT), além de estruturas com Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Também podem ser utilizadas garantias nas quais investidores externos, como seguradoras, fundos de pensão e hedge funds, assumem parte das primeiras perdas previstas em uma operação.

Esses mecanismos podem ser aplicados em setores como infraestrutura, agronegócio, pequenas e médias empresas, habitação social, projetos climáticos e finanças verdes. A lógica é reduzir a concentração de risco nos balanços das instituições financeiras e permitir que os recursos sejam reutilizados em novos financiamentos.

O último encontro da Jornada Blended Finance 2026 está previsto para 21 de outubro e terá como tema “Como atrair capital usando risco e retorno de investimentos para a transição”.